Review: A Desolação de Smaug, dos fãs, da obra e minha

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O Hobbit: A Desolação de Smaug finalmente chegou ao cinema no dia 13 de Dezembro do ano passado, depois de ter feito os fãs ansiarem desesperadamente com os três trailers lançados que eram de arrepiar toda a espinha. O filme era com certeza um dos mais aguardados do ano, e muitas pessoas esperaram o dia 13 de Dezembro chegar contando os dias para um resultado final que é visualmente impactante, bonito e bem trabalhado, estrategicamente lucrativo, mas devastadoramente tedioso, arrastado e decepcionante.

Todos sabem que essa nova trilogia de Peter Jackson no Universo de Tolkien é baseada no livro de único volume O Hobbit, que varia entre 300 a 400 páginas, dependendo da edição. Logo, a decisão do diretor de produzir três filmes em cima da obra, logo de cara, nos fez entender qual era sua real intenção com esse novo projeto: ganhar dinheiro.

Não que não haja coisas para explorar dentro do livro. Isso há, e muito. Mas três filmes é um exagero. Uma história que poderia ser muito bem contada em um longa com duração de 3 horas seria aceitável se fosse estendido para dois filmes com durações semelhantes, mas três fizeram muitas pessoas ficar com um pé atrás e esperar algo superficial, apenas para fins lucrativos.

No primeiro filme, alguns elementos foram introduzidos ao que era originalmente a história dos anões, acompanhados por um mago e um hobbit, em busca das terras e do tesouro, antes pertencentes aos anões, que o terrível dragão Smaug havia se apossado de forma brutal e tirana. Esses elementos foram totalmente plausíveis analisados de um determinado ponto de vista. Sempre que você vai ao cinema ver uma adaptação de um livro, tem que ter em mente que literatura e cinema são dois universos completamente diferentes. Duas mídias que têm maneiras distintas de transmitir sua mensagem e causar impacto em quem as consume. Para deixar claro, posso citar o encontro do Baurog com Gandalf em O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel. Originalmente, Tolkien descreveu a cena em que o Baurog quer mostrar seu poder de maneira contrária a que vimos adaptada nas telonas. As chamas diminuíam no ambiente e a escuridão tomava conta do lugar, envolvendo o Baurog e o mago cinzento. No filme, vimos o contrário: o fogo brilhou na tela. E isso foi mais impactante. Simplesmente porque em um livro trabalha-se o imaginário, e em um filme o visual. E é visualmente mais interessante e impactante mostrar chamas consumindo o lugar, do que sombras.

Por isso e por outros motivos, aceitamos a presença de orcs durante a jornada dos anões. Isso cria um certo problema com o qual os personagens têm que lidar, ao contrário do livro, em que eles simplesmente andam e têm seu caminho barrado algumas vezes. Aceitamos também algumas modificações em certas cenas icônicas do livro, como as do capítulo “Charadas no Escuro”, em que Bilbo encontra Gollum na montanha dos goblins. Assim como meu exemplo anterior, nessa cena foi visualmente mais interessante deixar o ambiente claro do que colocar os dos personagens no escuro completo. Para o cinema, a opção foi correta.


Mas chegando mais ou menos na metade do livro, encontramos a parte da trama na qual o segundo filme foi baseada. E, para mim, pareceu que os roteiristas rasgaram ou perderam essa parte da obra de Tolkien. Tínhamos algumas partes que podemos dizer serem de extrema importância para os fãs, que leram e esperaram tanto ver certas coisas no cinema. O encontro com Beorn, por exemplo. O ataque das aranhas e o encontro com os Elfos da Floresta. E a chegada à Cidade do Lago. Na realidade, essa parte do livro girava em torno disso, praticamente. E isso, como é de se imaginar, não seria o suficiente para fazer um filme. Mas aí veio o erro. A opção tomada não foi a de se aprofundar dentro desses elementos da trama inicial, e sim a de inserir novos, e isso tornou o filme quase inteiramente desnecessário.

Sobre o encontro com Beorn: decepcionante. Um dos personagens mais marcantes do livro teve sua presença resumida, além de ridiculamente adaptada para ter uma tensão desnecessária. Uma das partes do livro que merece ser analisada à parte pela sua genialidade foi jogada fora completamente. Quem leu o livro sabe que cria-se um momento engraçado, mas ao mesmo tempo tenso, com uma aflição sem igual. A comicidade se deve à resolução de Gandalf quando se depara com o problema de apresentar um grande número de anões entrando na casa de Beorn. Esse diálogo icônico não foi para os cinemas, e eu pude ver logo aí que existiam grandes chances do resto do filme ser assim.

O encontro com as aranhas veio em seguida e me deu uma ponta de esperança para o resto do longa. Como eu mencionei antes, os efeitos visuais foram impecáveis e as cenas de ação excelentes, por isso não havia como errar aqui. Mas como um filme não se sustenta apenas com efeitos especiais bonitos, o pico atingido pela batalha contra as aranhas foi logo abaixo com a chegada dos elfos. Novamente, uma oportunidade de manter a genialidade inicial da obra foi não só perdida como amassada e jogada no lixo. A maneira como os elfos atraíam os anões para fora da trilha simplesmente não existiu, e a partir daí tomei nota em relação ao restante do filme: não há como recuperar.

A presença de Legolas, que seria uma jogada muito bacana se fosse apenas para agradar os fãs mostrando um rosto amigo, acabou tornando-se exagerada. O personagem não existe na obra original, e aqui tornou-se quase um protagonista. Isso não seria ruim se fosse bem aproveitado, mas infelizmente não foi o que aconteceu. O elfo, filho do rei dos elfos da floresta, envolve-se em um triângulo amoroso em que uma elfa está envolvida e, sim, pasmem, também um anão. Um triângulo amoroso entre dois elfos e um anão.

E toda a parte envolvendo elfos foi estendida desnecessariamente. Cenas de luta contra os orcs e a fuga dos anões foram realmente bonitas de se ver, mas a essa altura você já tinha sacado que tudo isso era só para te enrolar.

E aí veio um dos principais problemas do filme. Nós vemos o que Gandalf vai fazer quando ele se despede do grupo dos anões, logo antes da batalha com as aranhas. No livro, ficamos nos perguntando o que teria acontecido de tão urgente para o mago ter que se retirar da aventura, e um Necromante é apenas mencionado. Aqui, vemos o que parece ser uma prequel aos filmes do Senhor dos Anéis. Não só descobrimos o que Gandalf foi fazer, o que tira o mistério e a magia da relação do Hobbit com O Senhor dos Anéis, como vemos também o próprio Sauron, personagem que nem em O Senhor dos Anéis, onde é o vilão, não chegamos a ver propriamente. Isso foi decepcionante porque, originalmente, a única relação entre o Hobbit e O Senhor dos Anéis era O Um Anel, encontrado por Bilbo e depois passado para Frodo, e isso dava certa independência para as duas histórias, que funcionavam muito bem sozinhas. Agora, O Hobbit parece apenas uma introdução aos eventos de O Senhor dos Anéis, e a oportunidade de deixar no ar a pergunta 'quem seria o necromante?', foi jogada fora. Além disso, sabendo o que Gandalf foi fazer, perdemos o mistério e o tom até mesmo cômico em volta do personagem que tivemos lendo o livro e é possível notar que tudo isso foi só para ganhar alguns minutos de filme e a chance de exibir alguns efeitos visuais.


Depois da fuga dos anões do reino élfico na floresta, temos a chegada à Cidade do Lago, lugar habitado por humanos. Sua recepção não é tão calorosa quanto no livro, mas isso é possível compreender, porque essa modificação foi bem executada, uma vez que um clima de tensão é gerado sem mudar muita coisa, o que foi um ponto positivo. A dificuldade dos anões nessa parte esteve em: entrar na cidade atravessando o Lago, sem serem percebidos.

Já dentro da cidade, conhecemos um pouco os habitantes de lá e do nosso futuro herói Bard, o que eu vi como algo bastante agradável, porque esse era realmente um ponto que merecia ser explorado e aprofundado na obra. Uma certa rivalidade cria-se entre Bard e Thorin, e tudo é construído com excelência para os acontecimentos que estariam por vir. Mas aí vem outro erro grotesco. Depois da partida dos anões para a Montanha Solitária, onde encontra-se o dragão Smaug e seu tesouro, Orcs invadem a cidade sem serem percebidos, rastejando pelos telhados das casas. Qual tinha sido a dificuldade dos anões inicialmente? Entrarem sem serem percebidos. E os anões que se mostraram bastante furtivos até então não conseguiram realizar a tarefa sem terem que se esconder dentro de barris cheios de peixe. Como então, orcs, que não são criaturas nem um pouco furtivas e silenciosas, conseguiram entrar na cidade e locomoverem-se pelos telhados das casas sem serem percebidos? Seriam esses orcs ninjas?

Três anões haviam ficado para trás: Fili, Kili e Bofur. Legolas e Taurien, os dois elfos que protagonizam o triângulo amoroso ao lado de Kili, aparecem na cidade e lutam contra os orcs. Isso enquanto o restante dos anões, acompanhados por Bilbo, tentam entrar na terrível Montanha Solitária.

Bilbo. E esse nome foi mencionado por mim só agora. Pois é, o personagem, originalmente considerado um protagonista, foi ofuscado pelo brilho dos elfos e das cenas desnecessárias. Algumas cenas mostraram que o personagem teve sim extrema importância na jornada dos anões, mas sua participação não passou disso.

Bom, e para encerrar, já dentro da Montanha, vemos o encontro do hobbit com o terrível dragão Smaug. O momento tão aguardado chega e o dragão, descrito por Tolkien como uma criatura belíssima, é revelado, com a voz vibrante de Bennedict Cumberbatch. Tudo é perfeito até que os anões entram no salão do tesouro para ir atrás de Bilbo, o que não tinha no livro antes. E isso gera uma batalha extremamente cansativa e resumida apenas a efeitos especiais bem trabalhados, levando o filme ao seu fim, com o grandioso dragão dirigindo-se para a Cidade do Lago, que é para onde levará destruição.

Sai da sala com vontade de não ver o próximo na estreia. Talvez nem no cinema. Confiei em Peter Jackson achando que o filme não teria cenas desnecessárias para preencher lacunas deixadas depois da decisão de transformar a história numa trilogia, mas isso foi praticamente a única coisa que vi. Algumas referências ao Senhor dos Anéis que tinham o objetivo cômico acabaram se perdendo quando esse filme se tornou um 'Senhor dos Anéis: O Começo', e o tom gracioso, infantil e aventureiro que os fãs tanto gostavam na obra de Tolkien cedeu lugar a cenas de luta bem feitas. No fim, esse filme pode ser resumido à apenas isso; cenas de luta bem feitas, um triângulo amoroso ridículo, introdução ao Senhor dos Anéis e decepção e desolação dos fãs.

Ok, talvez eu esteja errado em generalizar a opinião de todos, mas a minha e a de algumas pessoas com quem discuti o filme até agora foi exatamente essa. Talvez para aqueles que não tiveram contato com a obra de Tolkien não tenha sido tão ruim. Mas para nós foi.

E o que eu tenho a dizer para concluir é que sou grato ao comprovante escolar, que me possibilitou pagar meia-entrada. Senão eu pediria meu dinheiro de volta.



The Hobbit : The Desolation of Smaug
Diretor: Peter Jackson
País de origem: EUA/Nova Zelândia
Elenco: Martin Freeman, Richard Armitage, Ian McKellen
Ano de lançamento: 2013
Distribuidora: Warner Bros.
Duração: 2h45min






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Review: Globo reúne ótimo texto e grande elenco na minissérie/filme “O Tempo e o Vento”

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O Tempo e o Vento foi uma minissérie inspirada na série literária do escritor Érico Veríssimo. Essa saga está dividida em três livros: O Continente (1949), O Retrato (1951) e O Arquipélago (1961). Na adaptação para a televisão feita por Jayme Monjardim, teve três capítulos. A trama conta a história das famílias Terra e Cambará através das narrações memoriais de Bibiana Terra (Fernanda Montenegro). Ao receber a visita inesperada do falecido esposo, o capitão Rodrigo Cambará (Thiago Lacerda), os apaixonados relembraram juntos a história do amor deles e como se deu a formação da família Terra Cambará.

Não sou nem um fã da Rede Globo, no entanto devo reconhecer que no quesito qualidade nas suas produções, deixa as outras emissoras do país cheias de recalque. Uma vez que a qualidade das imagens, cenários e abertura estavam impecáveis. A fotografia da série/filme enche os olhos dos telespectadores, tudo foi pensado nos mínimos detalhes, desde a trilha sonora com o tempo correto entre as falas dos personagens até a narração de Bibiana.


 A escolha do elenco foi acertada, cada ator deu o melhor de si para os personagens. Cléo Pires deu vida a Ana Terra, a moça mostra cada vez mais seu talento herdado da mãe, Glória Pires. Cléo interpreta cada história com um toque diferente e especial. Enquanto Thiago Lacerda compôs com maestria o olhar sínico e sorriso irônico do capitão Rodrigo, embora em determinada parte da trama o cinismo e a ironia deram espaço para um homem rude e amargo. O que dizer da mestra Fernanda Montenegro na composição de uma das matriarcas e narradora da história, Bibiana? Na minha humilde opinião, Fernanda Montenegro deu um tom ideal na narração, usou e abusou da sua voz cansada e rouca, ela estava simplesmente perfeita, e deu a Bibiana um olhar triste e melancólico mergulhado nas suas memórias. Marjorie Estiano interpretou Bibiana jovem, ela se saiu bem também ao compor um olhar apaixonado e enfadonho no início e um pouco mais tarde esse olhar ganhou características tristes e melancólicas. 

No geral, gostei de tudo o que assisti. Agora me interessei pelas obras que conta a saga da família de Ana Terra que inspirou a minissérie/filme e lerei todas futuramente. Quero ver novamente, porém na versão fílmica sem esperar capítulo por capítulo. Indico ao filme desde já pra quem gosta de uma boa adaptação literária para o cinema, pois acredito que uma arte complementa a outra e o telespectador só tem a ganhar quando as obras literárias são transpostas para o mundo cinematográfico. 






O Tempo e O Vento
Diretor: Jayme Monjardim
País de Origem: Brasil
Elenco: Fernanda Montenegro, Cléo Pires, Marjorie Estiano
Ano de lançamento: 2013
Distribuidora: Globo Filmes
Duração: 02h 07min



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As melhores leituras de 2013

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Um ano com poucas ou muitas leituras sempre rende algumas “daquelas leituras”. As que vão te envolver mais facilmente, as que vão dizer muito sobre você, ou as que vão tocar no âmago do seu “eu”. 2013 foi um ano pouco rentável pra nossa equipe, mas nem por isso deixamos de elencar nossos 03 melhores livros lidos neste ano e explicar porque o são, ou pelo menos tentar, porque, como dizem por aí, nunca conseguiremos dizer tudo o que desejamos sobre uma obra que possui um lugar especial no nosso coração. Confira:


Devo confessar que os meios aos quais tenho me inserido nos últimos meses fizeram irromper em mim a ânsia por leituras que há muito venho adiando. E ler Cem Anos de Solidão foi uma dessas gratas influências, que me arrastou para os cenários de Macondo para acompanhar, ao lado da matriarca dos Buendía, a saga de uma estirpe condenada à solidão.
Apesar de suas quase 500 páginas, a leitura flui facilmente e você se vê envolvido já nas primeiras páginas. Cem Anos de Solidão é o tipo de obra em que você vai sentir agonia quando Rebeca come terra compulsivamente, dor por ver José Arcadio Buendía largado embaixo do castanheiro, tristeza pela desolação de Aureliano quando perde sua frágil e pueril esposa, e estima por Úrsula, que sustentou a família até os seus mais de 100 anos. García Márquez parece ter escolhido cada palavra com tanto cuidado, porque cada uma tem sua importância na narrativa de realismo fantástico.
Gabo, através de sua narração que ultrapassa os limites da criatividade, consegue fazer reflexões politizadas acerca da sociedade do século XX, além de divertir, emocionar e fazer sonhar.
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Genial. O adjetivo que melhor caracteriza Neil Gaiman e sua mais recente obra, O Oceano no Fim do Caminho. Essencialmente nostálgico, Gaiman narra um dia de volta às memórias na vida de um homem que, ao retornar à casa em que viveu sua infância e encontra, no fim do caminho, a fazenda das Hempstock – outro lugar que o marcou em seus tenros anos –, se vê recordando o passado sentado num banco em frente ao oceano de Lettie, e ali fica até o início da noite.
Um livro curtíssimo – que causou frustração, afinal, queremos sempre mais Gaiman –, mas que entregou tudo o que prometeu. O autor, brilhantemente, usou-se de referências do cotidiano para inserir sua fantasia. O menino protagonista – sem nome, o que achei genial – é o típico aventureiro, receoso e leitor, que questiona tudo o que sua imaginação permite. Por exemplo, numa passagem menciona-se o fato de os adultos só o serem por fora, pois ainda eram crianças por dentro, com seus medos e ilusões.
Além do aspecto reflexivo e crítico, Gaiman carrega sua obra de ação, que começa lentamente com cenas mais leves até atingir o ponto máximo no embate entre o menino e Ursula Monkton. Essa característica de narrativa vagarosa, sem pressa nenhuma, Gaiman faz com maestria, para que seu leitor penetre nos personagens e sorva cada detalhe até o ápice da estória.
O Oceano no Fim do Caminho é a prova de que ainda é possível escrever fantasia sem cair no abismo dos clichês que depredam obras do gênero, e que só vem reforçar – ou relembrar – as razões pelas quais Gaiman é o maior nome da literatura fantástica da atualidade. 
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Ler George Orwell sempre foi uma urgência na minha vida de leitora, e A Revolução dos Bichos foi um acertado primeiro contato. Apesar de ser uma obra que destoe um pouco da narrativa do autor, em relação à linguagem, a obra talvez seja a mais adequada para encarar Orwell pela primeira vez – minha experiência com 1984 me permite afirmar isso. O livro é um “conto de fadas rural” – como o próprio autor o definiu – que narra a vida de luta pelo fim da resignação de um grupo de animais de uma fazenda. Quando Major, um porco velho, sente que sua hora está por vir, compartilha um sonho que teve na noite anterior, com a intenção de libertar os outros animais da fazenda da submissão ao fazendeiro explorador, Sr. Jones. A partir daí, inicia-se a revolução para a derrubada daquela hierarquia abusiva e instauração de uma sociedade igualitária.
A Revolução dos Bichos é uma leitura rápida e fácil, mas carregada de crítica, e disso todo mundo já sabe. Orwell usa-se de uma fábula – com todas as representações de bichos construídas genialmente – para narrar, de certa forma, as condições em que se encontrava a União Soviética nas décadas de 1930-40, quando no comando de Stalin, não democrático, totalitário e que pregava os ideais de um falso socialismo.  
Uma obra que consegue ser atemporal e de importância incalculável à sociedade, que sempre vai nos lembrar que de vez em sempre encontraremos um porco por aí.
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Menções honrosas
Apesar de ter sido um ano de poucas leituras, 2013 também foi um ano de ótimas leituras, por isso, seria injusto e um martírio pra minha consciência leitora se eu não citasse, ao menos, outros três livros que me marcaram de alguma forma.
- Os Sofrimentos de Jovem Werther, que há muito ansiava pela leitura, e foi decisivo num momento delicado da minha vida – sem citar o fato de ter sido uma volta à época em que me apaixonei pelo Romantismo, quando no primeiro contato.
- As Vantagens de Ser Invisível, uma obra delicada e que deve ser lida com os olhos da sensibilidade.
- Bubble Gum, o maior e mais prazeroso soco no estômago que levei durante o ano. Lolita Pille ganhou-me já nas primeiras páginas pra me dar um “acorda pra vida” mais à frente da narrativa. 


Falar sobre as principais leituras que me chamaram a atenção em 2013 é um pouco difícil, visto que li alguns livros interessantes. No entanto, escreverei algumas linhas sobre três livros que se destacaram. 


O livro A Ordem do Discurso, de Foucault, enfatiza o lugar dos discursos e dos sujeitos, uma vez que nem tudo pode ser dito por qualquer pessoa ou em qualquer lugar, já que existe uma hierarquia discursiva e certos tabus no que pode ser dito ou não dito. 
Com a leitura desse livro pude perceber como os discursos constituem e como estes agem sobre os sujeitos, uma vez que os discursos estão ligados ao desejo e ao poder. Sendo assim, os indivíduos assumem diferentes identidades e posicionamentos de sujeitos, construindo, desse modo, constantes movimentos, transformando-se de acordo com o tempo e o lugar desse sujeito nos quais estiver inserido. Dessa forma, os discursos constituem os corpos e as instituições os sujeitos.

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A segunda obra que escolhi foi As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis. Esse autor é simplesmente incrível quando se trata do tema envolvendo fantasia. Porém, farei uma delimitação no livro e falarei apenas sobre o discurso religioso presente em todas as sete crônicas. Lewis traz o leão, Aslam, como a personificação de Jesus Cristo. Com toda ideologia da criação do mundo em sua obra, muitas vezes alguns personagens assumem papéis bíblicos.
Há temas relacionados às indiferenças, alegria, à justiça e ao perdão e a questão da irreligiosidade de Susana. Por ter usado a representação antropomórfica de Jesus Cristo, o autor foi avaliado como herege por alguns cristãos e organizações cristãs. De certa forma, Lewis aplicou esse discurso religioso no livro, tendo em vista que ele empregou a temática cristã de passagens bíblicas em histórias ficcionais. Mas como disse o próprio Lewis: "I wrote the books I should have liked to read. That's always been my reason for writing." 
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As vantagens de Ser Invisível, de Stephen Chbosky vai muito além de um conflito adolescentes, já que o autor traz na temática não só primeiras relações amoras, mas também dramas familiares e novos amigos, sonhos e caminhos.
Chbosky retrata a importância da amizade e principalmente a fuga da vida cotidiana, dando aos personagens a oportunidade de se sentirem infinitos e buscar novos horizontes. Dessa forma, essa obra é a transição da adolescência para a vida adulta, do ensino médio para a faculdade. É, portanto, a busca constante de se encontrar e se firmar como sujeito numa contemporaneidade em pleno movimento. 



Cá estou tentado lembrar como conheci Jogos Vorazes. Tenho certeza de que enganei meus amigos para irmos ao cinema, fingindo que a sessão de outro filme seria justamente na mesma que de THG. Só não poderia imaginei que estaria não apenas vendo um filme distópico cheio de efeitos especiais, mas também o que viria a ser uma das minhas sagas favoritas.
Dado interesse, comprei o livro e comecei a lê-lo (por indicação de, logicamente, Amanda – que era só elogio para o romance de Suzanne Collins). A trama em si nunca me causara tamanha afabilidade com Katniss Everdeen, mas bastou ler alguns capítulos e pronto, já estava encantando com essa jovem durona e destemida.
O livro é uma ótima leitura para quem deseja se aventurar por um mundo pós-guerra onde o governo é o seu opressor. Pode-se dizer que Jogos Vorazes é uma das sagas mais bem escritas para jovens publicadas até hoje, não por seu apelo que foca menos em triângulos amorosos melosos ou o risco de apontar um massacre entre jovens, mas sim pela forma como consegue reter críticas a Capital (nosso governo) e seu controle contra a população. Seríamos nós meras peças nos planos de um perverso e poderoso Presidente? Pode apostar que sim. Outro assunto a ser destacado é o modo como Collins dialoga essa manipulação da mídia, fazendo uma assimilação aos reality-shows (“Survivor” mandou lembranças) com esses apresentadores sarcásticos e divertidos (é o dom de Caeser Flickerman em te fazer rir ou se emocionar). Os diálogos são bem construídos (e não estão só ali para servir de enfeite), assim como seus personagens, e apesar de ter uma narrativa um pouco limitada por ser em 1ª pessoa (tudo acontece pelos olhos de Katniss), nos prende de tal maneira que é impossível não ansiar pelos próximos acontecimentos. Trata-se de um livro para introduzir mesmo a trama, deixando um pouco de lado toda essa parte sócio-política – o pontapé inicial para atrair adolescentes a saírem do modismo de vampiros e ter um olhar mais crítico, mesmo que superficial.
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Depois de se deleitar com o aperitivo que é Jogos Vorazes, nada mais justo do que aproveitar a refeição deliciosa que é Em Chamas. A trama continua envolvente e agora temos em maior âmbito a realidade cruel dos distritos e a superficialidade da Capital. Katniss é o tordo e medidas devem ser tomadas.
Não há dúvidas de que Em Chamas tem um teor político muito maior do que seu antecessor e por isso pode muito bem deixar um pouco todas aquelas emoções dos jogos à parte, tendo um início até que lento quando analisarmos pelo conjunto completo (mas que se dá necessário para nos ambientarmos na situação). Foi uma bela jogada de Collins em trazer os jogos novamente para o enredo, fazendo com que os jovens leitores (injustamente o público-alvo) não se entediem. Contudo, é bom deixar claro como o livro amadurece e traça novas reflexões para nós mesmos. “Lembre-se quem é o verdadeiro inimigo”. Esse pode ser a ponta entre o começo e o final, mas talvez seja o melhor (repleto de momentos incrivelmente aguardados para serem transmitidos nas telonas). É válido ressaltar que a autora se importa em fazer com que seus leitores compreendam sua mensagem, não deixando demasiadas pontas soltas na trama (nós sabemos o que deve acontecer, só não sabemos exatamente como). Quem diz que não gostou ou esperava mais, infelizmente não entendeu a real proposta da saga.
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A autora estreante Veronica Roth se tornou rapidamente a queridinha das listas de best-sellers dos Estados Unidos e não é para menos, Divergente é uma criação que merece reconhecimento. Ela não possui nenhum aprofundamento como Jogos Vorazes (mas calma, ainda estou no primeiro livro), entretanto já mostra novos conceitos de interpretação e se torna plausível a partir do momento em que percebemos como nossa população poderia realmente se dividir em facções.
Roth acerta em cheio em trazer uma trama adolescente em que o foco é simplesmente a iniciação da facção escolhida por Beatrice (ou Tris, para os íntimos). Não falta ação, mistério e nem mesmo romance (para os necessitados). É tudo ainda uma introdução, mas a leitura é tão envolvente que quando você vai perceber já leu mais capítulos – que não são lá muito grandes – do que imaginava. Outro ponto forte da escrita da autora são suas descrições, rápidas e objetivas. As emoções e pensamentos também não se prolongam muito, o que, vide o público-alvo, é um ótimo sinal. Os personagens também são construídos de forma com que nos identifiquemos (embora algumas mortes lá e cá ao longo da trama não nos afetem muito). É um livro despretensioso – à primeira vista – e que pode render bons frutos se suas sequências corresponderem ao enredo forte e centrado na personagem principal. Só espero que não caia naquele típico amor adolescente cheio de drama ou num fraco plot de encerramento. E cá entre nós, todos somos Divergentes!

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05 séries estreantes de 2013 que merecem sua atenção em 2014

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Arrisco-me a dizer que, desde que passei a me interessar por séries e sitcoms, 2013 foi talvez o ano de melhor safra para a tevê mundial. Teve de adaptações inusitadas de clássicos da literatura inglesa a produções que marcaram retornos esperadíssimos, passando por aquelas que nada esperávamos, mas que surpreenderam, e incríveis comédias de humor negro.

Comecei a acompanhar mais de 10 séries que marcaram sua estreia no ano passado, por isso, resolvi elencar as 05 melhores destas, com comentários sem spoilers! Assim como o post dos discos favoritos, este também é um misto das que podem ser meus guilty pleasures, das aclamadas pela crítica, das que possuem um lugar especial no meu coração, ou seja, vai de mais ou menos lixo a luxo, mas que mesmo assim são as minhas melhores do ano. Confira:

5º - The Fosters (ABC Family)

The Fosters é o tipo de série que ganha o seu coração pelas altas doses de clichês que emite já no primeiro episódio. A história acompanha a vida de uma família composta por duas mães, Lena (Sherri Saum) e Stef (Teri Polo), e filhos biológicos e adotivos, Brandon (David Lambert), Mariana (Cierra Raminez) e Jesus (Jake T. Austin), e como as coisas mudam depois que conhecem Callie (Maia Mitchell), uma garota problemática e disposta a resgatar seu irmão mais novo que sofre maus-tratos do pai adotivo.

Sob a produção inusitadíssima de Jennifer Lopez, a série faz um retrato singelo do novo conceito de família, que infelizmente ainda não é muito comum. Ela tem suas falhas, claro – a relação entre Saum e Polo soa superficial em alguns momentos, por exemplo –, mas que jamais anulam os aspectos que creditam a qualidade, principalmente sua sensibilidade em narrar fatos simples da vida.

The Fosters é, sim, uma série para se assistir em família, num início de noite, desde que os membros se dispam de qualquer preconceito e a enxerguem como deve ser, caso contrário, não passará de mais uma banal atração televisiva.

Quando retorna? A série retorna para o seu 11º episódio, “The Honeymoon”, no próximo dia 13

4º - The Crazy Ones (CBS)

Desde 1978, Robin Williams tem se dedicado ao cinema, deixando de lado o meio que o consagrou como ator e comediante: a televisão. Mas 2013 foi o ano em que ele resolveu voltar em grande estilo, misturando tudo o que tem de incrível, principalmente como comediante, na recém-estreante The Crazy Ones.

David E. Kelly (Boston Legal, Harry’s Law) narra as “peripécias” de uma equipe publicitária pra lá de louca liderada pelo “maculo-de-pedra-mais-que-genial”, Simon Roberts (Williams), e sua filha Sydney (Sarah Michelle Gellar), que precisam sempre procurar pela ideia genial que vai salvar o contrato publicitário. A série usa-se de clichês comuns a outras do gênero: o gostosão egocêntrico que utiliza seu charme como arma (Zach, vivido por James Wolk), a mocinha atrapalhada responsável por algumas risadas (Lauren, Amanda Setton) e o nerd perdido (Andrew, Hamish Linklater).

 A correria – e, às vezes, bagunça – no roteiro é um dos triunfos da série. Em The Crazy Ones tudo acontece muito rápido, as falas, as piadas, os subplots possuem uma velocidade incomum, mas como nem tudo são flores, vez ou outra acaba tropeçando e dando de cara no chão. The Crazy é o tipo de série que te faz rir (e às vezes boiar com algumas piadas level 100) em seus curtos 20 minutos por episódio, mas que no final lhe entrega uma bela mensagenzinha pra refletir ~no fim do dia~.

Quando retorna? A série retorna de um hiatus de fim de ano amanhã, dia 02

3º - Please Like Me (ABC2)

Se você possui pelo menos uma pontinha de apreço por Girls, não há porque razões deixar de ver Please Like Me. Josh Tomas é uma espécie masculina de Lena Dunham: o moço é responsável por criar, roteirizar, dirigir e produzir sua série que ganhou a crítica não apenas australiana. E é tão incrível quanto a vencedora do Globo de Ouro.

A série começa com um diálogo um tanto interessante e definidor da trama: enquanto toma um sundae de 19 dólares, Josh (Josh Tomas) declarar que tem tudo para estar feliz, mas não consegue, porque está prestes a completar 21 anos e seu rosto vai começar a cair. Nesta mesma cena, sua namorada propõe uma separação por achar que ambos têm se afastado um do outro e, por ele ser gay. A partir daí, o próprio Josh narra sua vida, o processo de se assumir como homossexual, sua relação com seus pais e seu melhor amigo.

A forma como Josh trata de assuntos como o uso desregrado de remédios controlados (sua mãe tentou se matar várias vezes), homossexualidade, separação e o ser jovem é o maior triunfo do precoce diretor/roteirista/produtor. Longe de ser um grande drama, Please Like Me é séria sem ter cara de séria. É incomum e vai além de narrar o “ser gay”. Uma dramédia com a visão de um jovem sobre a vida, e sustentada por um elenco primoroso.

Quando retorna? A série retorna para a segunda temporada em 2014, mas sem data fixa anunciada

2º - Utopia (Channel 4)

“Where’s Jessica Hyde?”
Se você acha que já viu de tudo na televisão, surpreenda-se com Utopia, uma das grandes apostas do canal britânico Channel 4. Uma série que se divide entre os extremos de ser estranha, mas genial, e que chama sua atenção desde o elenco até a fotografia – que, convenhamos, é coisa de outro mundo.

A história acompanha a vida de um grupo que, ao tomar posse de partes da HQ The Utopia Experience, passa a ser perseguido por macabros membros de uma sociedade secreta ligada ao governo e empresas importantes, a The Network. A série é um suspense que destoa de qualquer outro, e usa de muito sangue, cores fortes e ênfase na respiração agoniante do personagem do incrível Neil Maskell.

Mas como toda série genial da safra estrangeira, Utopia poderá ser adaptada por David Fincher para HBO, mas por enquanto são apenas rumores.

Quando retorna? A previsão de retorno à segunda temporada é para o segundo semestre de 2014

1º - Orphan Black (BBC America)

A maior injustiçada do Emmy, mas a produção mais genial do ano! Orphan Black merece todos os elogios e honras, mas que nunca serão suficientes para reconhecer sua qualidade. Nela, a órfã Sarah Manning (Tatiana Maslany) vê sua vida dando de cara com um poste quando se depara, numa estação de trem, com uma mulher idêntica a ela. A moça, Beth Chlids, uma detetive de polícia, se joga nos trilhos e Sarah pensa que encontrou a chance de mudar sua vida e conseguir a guarda da filha. A partir daí, levando a vida do clone suicida, ela percebe que não possui DNA único no mundo.

A genialidade de Orphan Black não está na temática científica ou nos efeitos especiais primorosos, mas no embate que provoca entre a questão da clonagem e da ética social, e está em Tatiana Maslany que consegue a proeza de fazer o improvável e viver várias identidades extremamente diferentes sem cair no abismo do fracasso.  

Em Orphan Black somos um brinquedo nas mãos dos criadores, ao nos enganarem quando prevemos um desfecho de alguma situação, uma fórmula perigosa, mas que John Fawcett e companhia usaram com maestria.

Quando retorna? A série retorna em 19 de Abril de 2014, para a segunda temporada. 


Menções honrosas: 10º Ray Donovan  9º Under the Dome  8º Brooklyn Nine-nine  7º Mom  6º Sleepy Hollow

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Os (nossos) melhores discos de 2013

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2013 prometia o retorno das divas. De Gaga a Beyoncé, passando por Britney Spears e Avril Lavigne. Mas trouxe também surpresas que agitaram as paradas musicais em todo mundo. De Ariana Grande a Lorde. E até daqueles que não tinham crédito algum.

Há quem diga que Beyoncé zerou o ano com seu álbum autointitulado lançado de surpresa numa madrugada deste mês. Outros defendem com unhas e dentes que 2013 foi o ano para Lady Gaga com seu ARTPOP. Dessa vez, resolvemos fazer diferente. Nós, equipe de música do O Que Vi Por Aí, apostamos nos nossos próprios clássicos do ano. Por meio de um top 05, elencamos aqueles discos que ficaram por horas no repeat, que nos marcaram de alguma forma indiscutível, ou que não passam de guilty pleasure.

É importantíssimo ressaltar que essa não é uma lista d'os melhores álbuns do ano. Na verdade, é, sim, mas os NOSSOS melhores álbuns. Por isso, imparcialidade pegou suas malas e partiu pra longe daqui. Enjoy! :)


5º - Night Time, My Time (Sky Ferreira)

(Night Time My Time, Capitol Records, 2013)
Há muito, Sky Ferreira vinha formando e modelando as bases de seu debut álbum para engatar de uma vez por todas a tão palpável estreia oficial e triunfal. A aura melancólica e a lírica sombria da moça se fundiram num pacto sobrenatural e o resultado foi o Night Time, My Time. Movimentado essencialmente pela solidão – que começa a exalar pro ouvinte a partir da capa –, o disco mistura sensações diferentes de torpor, até mesmo em canções com batidas mais agitadas como Boys e I Blame Myself, e o carrega para os ambientes mais sombrios da alma humana.   Se em 24 hours o eu-lírico tenta fugir das amarras de um romance limitado, em Nobody Asked Me, a cantora grita “Nobody asked me if I was ok” e parece confirmar toda a construção e musicalidade proposta pro disco. You’re not the one é o direcionamento para o pop autêntico e evidente para o qual Ferreira também se apontou.

Entre o pop obscuro e os sintetizadores abertos, cada faixa parece estar intimamente ligada ao pop dos anos 80, sem o compromisso de ser esse um simples aspecto estético. Night Time, My Time é uma obra mais-que-coesa em sua totalidade e o primeiro reflexo fixo do propósito inovador a que Ferreira se destinou.


4º - Girl Who Got Away (Dido)

(Girl Who Got Away, RCA Records, 46:07)
Dido é, senão a maior, uma das poucas cantoras que conseguem reunir um turbilhão de sentimentos nas faixas de um disco e, num certo momento, até misturar uma parcela deles e fazer o ouvinte surpreender-se com sua própria postura durante a audição. Toda sua docilidade, força e inspirações estão ordenadas harmonicamente no seu último Girl Who Got Away, um disco em que pop, folk e eletrônica se juntam ao lirismo mais sincero para encabeçar as listas das melhores produções do ano. A moça retorna ao seu passado glorioso com ousadia, mas se desvencilha um pouco do ambiente acústico dos outros trabalhos. “No love without freedom, no love without freedom”, clama Dido na canção que por si só poderia zerar o álbum, se a faixa-título não viesse logo em seguida só para confirmar o triunfo da cantora. End of night e Go Dreaming são dois belos exemplos da audácia da cantora ao passear pelo eletrônico sem deixar-se capotar pelo despenhadeiro do risco que é trabalhar com batidas eletrônicas num álbum que não tem o propósito de ser um disco dançante. Day Before We Went to War fecha o disco com sua harmonia simples e poética que, se juntando à letra, mostra que Dido sabe bem como construir imagens através de suas canções.

Em Girl Who Got Away, Dido foi tudo o que quis e até o que receava em ser. Numa época em que sair de uma zona de conforto pressupõe uma autodestruição, ousar passear por estradas arriscadas e sem perder a essência é mais do que um triunfo. E Dido o fez.


3º - The Blessed Unrest (Sara Bareilles)

(The Blessed Unrest, Epic Records, 50:35)
Todos os adjetivos mais amor da língua portuguesa ainda não seriam capazes de caracterizar o mais recente lançamento de Sara Bareilles. The Blessed Unrest é daqueles discos para se amar na primeira audição e ir elevando o nível conforme as inúmeras repetições, pra no final do dia (?), ser uma doce nostalgia. A moça te faz crer que o álbum será mais animado que Love Song com a energia contagiante de Bravevale até sair dançando no meio da rua, no restaurante, noshopping – para te mostrar que, antes de qualquer coisa, The Blessed Unrest celebra a saudade, os primeiros amores e a doce e melancólica ilusão. Manhattan é uma baladinha sustentada por um piano melódico e a voz doce de Sara, oscilando entre os graves e agudos. Em Little Black Dress, a moça brinca com os saxofones e as batidas constantes que querem arriscar em retomar o som do debut, Little Voice, mas não em sua totalidade. E assim segue o disco, oscilando entre rupturas e retomadas ao passado.

The Blessed Unrest é o retrato de Sara Bareilles experimentando coisas novas, mas seguindo em frente pelas ruas de Manhattan. Ela presenteia os fãs com sua doçura, letras bem trabalhadas e o piano da inocente Sara lá do Careful Confessions e Kaleidoscope Heart, mas não se distancia do que poderia tocar nas rádios. Um disco cíclico, porque não poderia ser outra coisa, e que te faz sair cantarolando meio mundo de seu repertório.

Destaques: Manhattan, 1000 Times, December 

2º - Native (OneRepublic)

(Native, Interscope Records, 46:44)
Pouquíssimos artistas conseguem permanecer fiéis ao seu som característico, enquanto evoluem por três, quatro ou mais anos de carreira. O OneRepublic é uma dessas pouquíssimas bandas que, além de manter-se fiel à sua essência pop-rock, consegue inovar a cada novo trabalho, passeando facilmente por outros estilos. Com o Native não foi diferente, pelo contrário, foi nele que Ryan Tedder e companhia fizeram o que só uma em cada dez bandas consegue fazer: reunir em catorze canções um pouco significativo de cada um dos dois antigos álbuns (Dreaming Out Loud e Waking Up) com maestria. Numa primeira audição, Native pode parecer uma das melhores coisas que você já ouviu do OneRepublic até então, mas quando seus ouvidos se acostumam às batidas pop-rock flertando com o folk (e até com o soul), o disco pode ir ao status de carreira-triunfal-da-banda-resumida-em-um-disco-e-a-melhor-fase-criativa-e-inovadora-de-Ryan-Tedder.

O álbum resgata a sonoridade pop-rock e ainda consegue flertar com o folk e soul e traz um OneRepublic mais pop do que nunca. Counting Stars é um pop bem animadinho e bem conceitual, que abre incrivelmente o disco e já define sua cara. Au Revoir, uma das canções que mais se destaca, conquista por sua abertura com uma belíssima orquestra e pelo clima de mistério na sonoridade embalada por um piano (sem contar os vocais extremamente suaves de Tedder). Outras como Preacher, Something I Need e Life in Color são tesouros que provam que a genialidade de seu vocalista não tem limites. Native é a prova concreta de que quatro anos de hiato não é capaz de abalar as estruturas da boa música. (review escrita originalmente para o nosso parceiro O Anagrama)

Destaques: Au Revoir, Preacher, Something I Need

1º - Too Weird to Live, Too Rare to Die (Panic! at the Disco)

(Too Weird to Live..., Decaydance Records, 32:32)
8 de outubro foi o dia em que o Panic! at the Disco zerou o ano e anulou todas as chances de qualquer álbum ser considerado o melhor do ano. Imparcialidade mandou lembranças calorosas. Too Weird to Live, Too Rare to Die é o tipo estranho e genial, doce e azedo, água e vinho, inocente e selvagem. O misto de extremos construídos genialmente por uma banda que saiu de uma zona para se riscar no fracasso. E foi o contrário. É um disco que acende a ânsia por ouvir cada detalhe, sem saltar uma faixa sequer. Batidas ritmadas, ora ordenadas, ora desesperadas, os vocais inconfundíveis de Brendon Urie, corais harmoniosos, aberturas incomuns sumarizam o disco.

This is Gospel faz jus ao título de primeira faixa para mostrar logo de cara a que veio o Panic! com esse disco. Miss Jackson vem em seguida com suas batidas maciças, corais ressonantes e efeitos que rementem a um cenário sombrio e de destruição. Se Girl That You Love perde o clima de celebração e o ritmo leve e iluminado de Vegas Lights, Nicotine os recupera e completa com todo seu sentimento de transgressão e rebeldia, transformando-na na que pode ser uma das melhores faixas do trabalho. A banda brinca em Girls/Girls/Boys sem quebrar a atmosfera desobediente da anterior, e cria imagens de jovens protagonizando uma bebedeira num fim de madrugada em qualquer lugar do mundo. Far too Young to Die é, sem medo, a melhor canção do disco. Costumo associá-la a um poema cheio de representações, metáforas e antíteses, só que com uma melodia ao fundo. São dela as batidas mais consistentes de todo o tracklist e a palavra-chave principal. Com seus 3:30 minutos que mais parecem 1:30, The End of the Things encerra o trabalho celebrando a efemeridade das coisas.

Um disco rápido cronologicamente e eterno psicologicamente. Uma celebração à efemeridade da vida, mas um alerta à dissipação inconsciente do curto tempo. 


5º - Yours Truly (Ariana Grande)

(Yours Truly, Republic Records, 46:28)
Ariana Grande entre os álbuns de maior destaque de 2013? Isso mesmo! Mesmo não tendo ganhado tanta repercussão nas premiações como “Artista Revelação” (Grammy errou feio), a compilação de músicas presente no Yours Truly merece, sim, seu reconhecimento.

A cantora que começou como atriz em séries infato-juvenis, apresentou esse ano sua faceta na música, e não é que ela se deu muito bem? Com faixas como Right There, Baby I, Better Left Unsaid e o carro-chefe The Way, ela conquistou nossos corações e garantiu um lugar na indústria musical. Comparações à parte com Mariah Carey, a voz e simplicidade que Ariana imprime em seus trabalhos transparece em sua personalidade e a torna aquela carinha meiga e adorável que nos encanta tão facilmente. É um álbum bom e bastante conciso em suas experiências (ingênua sim, boba nunca), atraindo um ritmo pop R&B que pode e deve dominar os charts futuros!


4º - Native (OneRepublic)

(Native, Interscope records, 46:44)
Tem mesmo alguém que saiba escrever e produzir músicas tão bem como Ryan Tedder? O cara é simplesmente um gênio quando se trata de unir uma melodia deliciosa a uma letra contagiante. Por trás de composições tão bem feitas (ele deu um jeito até nos agudos da Christina Aguilera em We Remain), OneRepublic não pode ficar do TOP 5 de álbuns de 2013.

O Native é tão gostoso de ouvir que realmente não tem nenhuma música que acaba te desagradando – mas tem aquelas que a gente tem uma quedinha maior. If I Lose Myself, What You Wanted, Something I Need e Preacher são apenas algumas das faixas que grudam na cabeça com seus refrões I-N-C-R-Í-V-E-I-S! Counting Stars é a grande maravilha do álbum, abusando de uma sistemática de ritmo impressionante, com variação de vocais (não tem como não gostar)! É um repertório para se ouvir, se identificar e sair cantando por aí (seja no chuveiro, na rua, no busão...). E o que dizer na capa? Uma das melhores do ano também.

Destaques: Counting Stars, If I Lose Myself, Something I Need

3º Beyoncé (Beyoncé)

(Beyoncé, Columbia Records, 66:35)
Tivemos pouco tempo para ouvir, mas já dá para amar! A atitude inovadora de Beyoncé em lançar um álbum inédito com 17 clipes do nada roubou a cena da música em 2013, mas de nada adiantaria se o repertório não fosse bom, certo? E não podia ser melhor! Temos aqui Bey de volta com seu ritmo pulsante do R&B em composições que podem até soar simples, mas muito engenhosas.

Beyoncé é tudo que pedimos diante de tantas farofadas que ainda vemos por aí – se bem que em 2013 tivemos uma bela desintoxicação. Tem como não cair de amores com Pretty Hurts? É, sem dúvidas, uma das melhores, mas são tantas boas que fica difícil escolher uma para chamar de sua. As petições vocais ~ fantasmagóricas ~ de Hunted, a viciante Drunk in Love, a deliciosa Blow, a inusitada Mine e a divertida XO. Por fim, sabemos que estamos ouvindo um dos melhores álbuns do ano por ser simplesmente aquilo que ele deve ser, sem exageros ou grandes revoluções. A ralé passa longe daqui!

Destaques: Pretty Hurts, Mine, XO

2º Pure Heroine (Lorde)

(Pure Heroine, Universal Music,  37:08)
Ela pode agradar ou não, precisar de produtos da Jequiti ou não, fazer uma de possuída no palco ou não e criticar, é claro, mas continua sendo uma das maiores descobertas da música em 2013 (menos um ponto para o Grammy em não indicá-la para “Artista Revelação”). Lorde apenas sucumbiu a todas as divas em todos os sentidos com suas músicas.

Pure Heroine está em 2º lugar porque realmente merece! As composições são ótimas e cheias de figuras de linguagem, só para destacar o intelecto de nossa lordezinha. Não somente de Royals ela vive, mas também de Team, Ribs, 400 Lux, Buzzcut Season e da mais que incrível Tennis Court – a música é só sua maior crítica a essa vidinhas falsas e infelizes. Detonando vidas com a primeira frase: “Don't you think that it's boring how people talk?”. Ela alcançou o topo da Billboard, mas suas músicas não foram feitas para agradar charts e sim para mentes que pensam (existem mais coisas entre nossa moral do que sonha nossa ética). Por isso, é um dos melhores repertórios (com 10 músicas), por não se render a mesmice ou a impetuosa desintegração rasa da música. É básico, inteligente e perspicaz com uma pitada de crítica malagueta!

Destaques: Tennis Court, Team, Royals

1º - The 20/20 Experience - The Complete Experience (Justin Timberlake)

(The 20/20 Experience, RCA Records, 70:02)
Dentre tantos retornos, o que mais abalou a continuidade do mundo da música foi, sem dúvidas, Justin Timberlake! Após seis anos afastado dos palcos, JT resolveu nos presentear não só com uma, mas sim com duas compilações de sua última investida na música. Ele trouxe de novo aquele frescor que tanto precisávamos para nossos ouvidos – corrompido pela generalização do dubstep.

The 20/20 Experience é realmente uma grata experiência (não visual como a de Beyoncé, mas do melhor bom gosto auditivo). Com faixas cada vez mais cativantes e um ritmo R&B digno dos anos 70-80, temos a impressão de estarmos viajando para o passado trazendo conosco todo o presente como uma junção do melhor das épocas. O primeiro volume pode ser mesmo a melhor das duas, contudo é impossível negar que uma complementa a outra. Suit & Tie , Tunnel Vision, Mirrors, Let the Groove Get In, Gimme What I Don’t Know (I Want), True Blood, Cabaret e Murder é tudo que nós pedimos e muito mais para ter essa essência, são melodias, ritmos, letras e notas todas entrelaçadas para o bem maior do que uma composição. No final das contas, quem sai ganhando com tudo isso somos nós com a sensação do que a música tem o melhor para oferecer.


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A arte imitando a arte: Tatuagens literárias

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A tatuagem já foi usada para identificar bandidos e enfeitar poderosos, para juntar tribos e afugentar inimigos, para mostrar preferências e esconder imperfeições, identificar rebeldes, assumiu a cara da marginalidade, faz parte da história. Hoje a tatuagem é utilizada para expressar o individualismo e a subjetividade.

Tudo nos leva a crer que a arte de marcar o corpo é quase tão antiga quanto a humanidade. A tatuagem ou dermopigmentação é uma das formas de modificação do corpo mais conhecidas e cultuadas pelo mundo. A grande motivação dos cultuadores dessa arte é que é uma obra de arte viva e temporal como a vida.

A tatuagem surgiu como forma de expressão há mais de 3500 anos. Além disso, era utilizada para distinguir indivíduos de uma mesma comunidade tribal. Com o tempo, a tatuagem passou a ser usada para marcar os fatos da vida biológica como o nascimento, a puberdade, a reprodução e a morte.

Perseguida em vários momentos da história, a prática foi banida por decreto papal no século VIII e na Nova York do século XX. Apesar disso, é difícil encontrar alguém que nunca tenha pensado em marcar a pele com essa bela obra de arte.

Hoje as tatuagens deixaram de ser extravagantes e representar subjetividade, palavras, palavras e mais palavras. No contexto atual em que vivemos onde se cultua cada vez mais o indivíduo, pode e tem induzido muitas pessoas a fazer de sua pele um lugar para expor suas ideias, valores ou simplesmente uma vaidade.

Muitas pessoas tem buscado inspiração nos livros para se tatuar. Essas tatuagens podem ser desenhos, frases ou simplesmente um ponto. Por isso, o O Que Vi Por Aí selecionou algumas tatuagens literárias que vão de O Pequeno Príncipe a Fahrenheit 451.

O Pequeno Príncipe (Le Petit Prince) - Antoine de Saint-Exupéry

Harry Potter - J.K. Rowling

Dom Quixote - Miguel de Cervantes

Alice no País das Maravilhas - Lewis Carroll

Onde Vivem os Monstros - Maurice Sendak

On the Road - Jack Kerouac

As Vantagens de Ser Invisível - Stephen Chbosky

Trecho do poema "Blue Birds" - Bukowski

1984 - George Orwell

Fahrenheit 451 - Ray Bradbury

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